LIFE IN A DAY

Registrar um dia na Terra, na vida de todos e de cada um de nós. Desafio complexo, que exigiria equipe grande e muitos recursos para transformar todo o material coletado num filme de 93 minutos.

Desafio que se concretizou através da edição de mais de 4.500 horas de material, enviado por 80 mil pessoas de diferentes partes do mundo. Life in a Day1, documentário colaborativo de Kevin Macdonald, é isso. Exemplo de como a criação colaborativa pode resultar em um filme que reúne línguas, tipos, características, costumes os mais diversos que se possa imaginar, unidos por uma premissa comum: as ações se passam em um único dia na Terra: 24 de julho de 2010.

O projeto, feito colaborativamente pelo youtube e patrocinado pela LG, em parceria com o Instituto Sundance, e produzido pelo premiado diretor Ridley Scott (Blade Runner), começou com uma chamada mundial. No vídeo de apresentação, Macdonald convidava as pessoas a pegarem uma câmera, preferencialmente de boa qualidade, e filmar um momento de suas vidas. Contar suas histórias. “Pode ser algo que pareça muito banal para você. Pode ser o seu percurso até o trabalho, o banho do seu bebê, uma visita a um amigo no hospital, seu aniversário ou uma caminhada no campo. Ou pode ser algo muito mais significativo para você, mais emocional. A demolição de um prédio perto de onde você mora e que você sempre adorou. A morte de um amigo,” definia ele.

Além disso, Macdonald definiu três pontos que as pessoas deviam se preocupar em abordar. Três questões que elas deveriam responder: Do que você mais tem medo em sua vida hoje? O que você ama? O que faz você rir? Um último pedido foi feito por ele – as pessoas também deveriam tirar o que tivessem em seus bolsos e filmar. Foi uma forma de tentar minimamente traçar uma linha que unificasse o material recebido, independente do que fosse retratado pelas pessoas.

“Será uma espécie de cápsula do tempo, na qual as pessoas do futuro, talvez daqui a vinte, trinca, quarenta, cinqüenta, cem, duzentos anos, possam olhar e dizer: Meu Deus, então era assim? Um retrato da vida em um dia”, definia Macdonald ao dar início ao processo. “Será algo singular e também algo que, acredito, terá uma espécie de valor social. Um tipo único de documentário.”

Life in a Day é um tipo único de documentário por algumas razões. A primeira delas é o uso colaborativo de uma rede social para a captação de material a ser usado em um filme. A plataforma escolhida foi o Youtube. Macdonald pediu às pessoas que enviassem instantâneos de suas vidas registrados naquele dia 24 de julho de 2010. Ao mesmo tempo em que há um barateamento nas atividades de captação do material, posto que sua equipe é composta por toda e qualquer pessoa interessada, que queira fazer parte da rede, da comunidade, digamos assim, de Life in a Day, dispostas a mostrar uma pequena parte de suas vidas e abrir mão dos direitos autorais ao postar seus vídeos no Youtube, a estratégia se propõe a dar voz às pessoas interessadas e amplificar essas vozes ao promover a exibição mundial do documentário.

A segunda delas é ter incutido nas pessoas a velha máxima de Glauber Rocha – uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Bem, não só isso, é verdade, já que as pessoas, além de contarem um pouquinho de seu dia a dia naquele momento, deveriam se preocupar em responder as três perguntas colocadas por Macdonald e em esvaziar os bolsos na frente da câmera. De todo modo, o que as redes sociais têm feito é que qualquer um de nós pode registrar sua história, uma situação qualquer, e dividi-la com as redes. Com as comunidades. Compartilhar.

Redes sociais são a extensão de uma necessidade que sempre esteve presente para a humanidade: a de viver em grupos, em comunidades, em redes. Seja por razões de sobrevivência, de aceitação social, de compartilhamento de interesses, de identificação, ou simplesmente pela necessidade de fazer parte.

Entretanto, “os grupos que os indivíduos destituídos pelas estruturas de referencia ortodoxas tentam encontrar ou estabelecer hoje em dia tendem a ser eletronicamente mediados, frágeis totalidades virtuais, em que é fácil entrar e ser abandonado. Dificilmente poderiam ser um substituto válido das formas sólidas – com a pretensão de ser ainda mais sólidas – de convívio que, graças à solidez genuína ou proposta, podiam prometer aquele reconfortante (ainda que ilusório ou fraudulento) ‘sentimento de nós’ – que não é oferecido quando se está surfando na rede”.2

As redes nos oferecem um simulacro de comunidade, que em momento algum pode ser considerado um substituto válido de “sentar-se a uma mesa, olhar o rosto das pessoas e ter uma conversa real”.3 Não é à toa que o Youtube é o segundo maior site de busca do mundo, e que a cada minuto, 24 horas de vídeo são carregadas nesta plataforma4. Ainda é muito importante, para cada um de nós, ver um ser humano contando uma histórica, ‘falando’ conosco, ‘interagindo’, mesmo que num simulacro de interação como o proporcionado pelo vídeo.

As redes sociais proporcionam uma interação importante, que nos permitem fazer parte de diversos grupos, ou comunidades, interagindo nos mais diversos temas e assuntos. Mas para interagir nestes espaços virtuais, é fundamental nossa experiência enquanto seres humanos. E esta só acontece no mundo real. E é ela que nos proporciona a interação nas redes.

Life in a Day parte de uma premissa bem importante neste sentido – convidou pessoas a registrarem algum aspecto de suas vidas num único dia. De suas vidas, reais. Pequenos pedaços de suas histórias, instantâneos da vida real. Tal como um bricoleur, Kevin Macdonald e sua equipe foram hábeis no processo de seleção e edição, embora o trabalho tivesse já uma linha mínima de coesão pré-estabelecida – a resposta às três perguntas e a descoberta do que as pessoas carregam em seus bolsos. Entretanto, selecionar e editar 93 minutos de um total de 4.500 horas de material postado não é tarefa pouco complexa.

O resultado tem força. São histórias que nos tocam e com as quais encontramos pontos em comum. O homem gosta de ouvir histórias. Desde sempre. No entorno das fogueiras, com ancestrais que dominavam a cultura e a transmitiam oralmente aos mais novos. Pela leitura de livros que registram narrativas, sejam elas ficcionais ou não. Pelo Youtube, por que não? Uma boa história, independente dos recursos utilizados para contá-la, ainda prende a atenção do homem.

Uma família que resolve registrar o dia a dia da mãe com câncer já em metástase. Um ciclista coreano que percorre o mundo há nove anos. Orações, oferendas, partos. Uma torre humana. Uma criança que trabalha como engraxate no Peru. O despertar de uma criança que vive no Japão com o pai e que todas as manhãs acende incenso em memória da mãe, falecida oito meses antes da realização do vídeo. Um senhor que acaba de passar por uma cirurgia cardíaca. Homens ordenhando cabras. Muitas pessoas admitindo seus medos, coisas e pessoas que amam e esvaziando os bolsos. Enfim, uma verdadeira miscelânea de atividades cotidianas, na maioria dos casos.

A pluralidade de culturas muitas vezes dificulta nossa noção de pertencimento a uma determinada esfera. Mas o que temos em comum, independente da cultura a qual pertencemos, é nossa humanidade. E dentro dela ajustamos indefinidamente “pedaços” de modo a conformar nossa identidade. Integrar comunidades, redes, é parte disso. Como alcançar a unidade na diferença, e como preservar a diferença na unidade? Como fazer parte?

Ainda mais interessantes do que o próprio resultado do filme são os vídeos, também disponíveis no Youtube, com os depoimentos das pessoas que tiveram seu material selecionado. Momento em que conhecemos suas motivações, seus anseios, um pouco mais de suas histórias.

O final do documentário de Kevin Macdonald é particularmente perturbador nesse sentido. Chove muitíssimo e vemos o depoimento de uma moça, dentro de um carro, que percorre uma estrada embaixo da chuva. E ela basicamente lamenta que o dia está acabando e que não conseguiu identificar nenhuma história, nenhum momento em sua vida que tivesse sido de alguma forma especial para registrar no dia 23 de julho de 2010. Nada que indicasse que a vida vale a pena a cada dia. Para ela, simplesmente nada digno de registro aconteceu naquele dia.

A preocupação em registrar momentos para que outros vejam o quão boa é nossa vida é um fantasma que ronda as redes sociais. Nossa vida não é feita exclusivamente de coisas boas, como o próprio filme demonstra. E o simulacro da vida proporcionado pelas redes sociais leva a grande maioria de seus usuários a postarem somente os momentos de sucesso e felicidade, o que pode gerar frustrações ou transtornos piores para muitas pessoas.

A máxima das redes hoje é: você é o que você compartilha. As comunidades virtuais são espaços de interação geniais. Mas são abastecidos por nossas experiências cotidianas. É importante nos lembrarmos sempre disso.

2 BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2005, pag.31.

3 Idem

4 QUALMAN, Erik. Socialnomics

Anúncios

Um pensamento sobre “LIFE IN A DAY

  1. Moniquinha querida, trata-se de um post ou de uma aula? Quem sabe material para sua tese de doutorado? Ou você já está no momento pós doc?

    Menina, muito interessante tudo isso, e, de fato, nada distante… Vou ver se acho o material visual no youtube para entender melhor…

    Concordo que a vida on line é mesmo um simulacro, mas penso que não podemos desprezar um instrumento tão espetacular de aproximação entre as pessoas.

    Indispensável, linda menina, é manter o olho armado e se prevenir (por que não?) com as vestimentas de Jorge! Salve!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s