as aves que aqui gorjeiam…

Bretas

Numa casa sossegada em Juiz de Fora, Eduardo Brettas exercita seus pincéis. Um estúdio enxuto e permanentemente protegido – precaução para que as “artes” do filho Ricardo, de sete anos, não se misturem à sua – ele desenha pássaros. Muitos. De muitos lugares. “Tem um passarinho que de vez em quando entra aqui e uma vez entornou tinta na minha mesa, então o escritório agora tem que ficar fechado”, diz ele sorrindo com ar de quem é cúmplice das traquinagens do filho.

Arte complexa praticada por ele desde 1993, que exige que se vá atrás dos bichos em campo para fazer os primeiros esquemas, pegar o shape do pássaro. “Se você não aprender a fazer assim, se começar a copiar sempre de livro, vai ficar dependente de fotos, não vai conseguir criar nada,” define.

E lá se vão os pincéis do pintor naturalista, que já publicou ilustrações de aves e mamíferos de Santa Catarina; curiós e bicudos; borboletas e mariposas; espécies ameaçadas de extinção no município do Rio de Janeiro; aves ameaçadas, em extinção e extintas do México; tucanos das Américas, entre outros. Os mais recentes, em parceira com Thomas Sigrist, outro artista naturalista, foram os guias de campo Aves do Brasil Oriental e Aves da Amazônia Brasileira.

Natural da cidade de Ponte Nova, Minas Gerais, Brettas se lembra de uma fala da avó: “Eduardo, não desenha passarinho não, porque quem mexe com passarinho pode ter certeza que é vagabundo”. Em Ponte Nova, como em quase toda cidade do interior, era normal as pessoas terem pássaros nas gaiolas e andarem pelas ruas para ‘levar o passarinho pra tomar sol’. Contrariando a avó e com o apoio da mãe, Brettas começou, justamente, a desenhar pássaros.

Hoje sua rotina é de interior. O sono começa por volta das 20h30 e o dia às 5h. Num dia normal, ele anda pelas redondezas de casa, localizada numa área onde ainda há bastante verde na cidade, ou vai até uma reserva. Isso quando não tem nenhum trabalho específico programado. No início deste ano Brettas fez um trabalho sobre o Pantanal que lhe custou umas quatro viagens, destinadas a fotografar e a fazer esboços para os desenhos. A rotina de trabalho é sair bem cedo com lápis, gravador e máquina fotográfica, registrando o máximo possível do ambiente para evitar arrancar folhas, galhos e outros materiais de referência do habitat do bicho. “Geralmente não levo tinta, só lápis mesmo. Com o recurso da câmera consigo gravar as cores. Procuro desenhar o máximo possível de pássaros. Tento identificar e fazer o esboço rapidamente, o pássaro não fica parado na sua frente,” diz. Brettas desenvolveu uma técnica para registrar com rapidez o shape das espécies: olha o bicho, fecha o olho rapidinho e joga o olhar no papel, logo na sequência: “é impressionante como o bicho aparece direitinho no papel”. No Pantanal, ele se diz surpreendido com a quantidade e variedade de aves: “Na Amazônia, na Mata Atlântica, os bichos não aparecem tanto, é um aqui, outro ali, e você já ganhou o dia quando vê um. No Pantanal é diferente, a quantidade de aves disponível para desenhar é muito grande, e todas de uma vez,” conclui.

Socó-boi (Tigrisoma fasciatum)

Socó-boi (Tigrisoma fasciatum)

Mas o trabalho não termina aí. Com o registro dos bichos, Brettas parte para elaborar a prancha e definir as cores. Procura o Museu Nacional da USP e outras instituições para fazer o esboço das cores. Depois então parte par aa montagem das pranchas com as ilustrações das aves. O trabalho final é rápido. Pássaros maiores, como os tucanos, levam em média dez dias para ficarem prontos. Já pássaros bem pequenos ele consegue fazer muitas vezes em cerca de 20 minutos.

Este ano o trabalho de Brettas também pode ser conferido no selo criado para os Correrios, dentro da série Aves Autóctones, disponível desde outubro para os colecionadores, dentro da série Mercosul:

“A gente tem que fazer o maior número de desenhos possível. Daqui a pouco a gente não vai ter material. A ganância do homem está desmatando tudo. Vamos ter que trabalhar a partir de fotos ou ter que viajar muito pra encontrar os pássaros e desenhar,” lamenta. Brettas já desenhou mais de mil espécies.

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2 pensamentos sobre “as aves que aqui gorjeiam…

  1. Tenho muito orgulho em falar, que além de conterrãneo deste profissional e ser humano fantástico, tenho o privilégio de ser amigo e de tê-lo como amigo. Me entristece muito, o comentário deixado pelo Eduardo, no que diz respeito à pressa em catalogar o maior números de espécies possiveis de aves, antes que seja tarde demais. Que mundo é esse!!!

  2. Meu caro amigo, é muito importante para todos nós este trabalho que você realiza, deixando para posteridade documentado o que foi um dia a nossa biodiversidade em especial os passáros.
    Espero que esteja tudo bem com você e sua família.
    Grande abraço!!!
    Paulo Maurício

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