Hélio já plantou mais de cinco mil árvores e está arborizando um piscinão…

Calabura, eucalipto, bambu, ipê, ingá, peroba, manacá-da-serra, jatobá, pau-ferro, araribá, cerejeira do Japão, embaúba, quaresmeira, abacateiro…Assim vai Hélio Silva apontando o dedo e identificando as 152 espécies de árvores escolhidas por ele para arborizar o Parque Linear Tiquatira, na Penha, zona leste de São Paulo. Quem caminha pelo Parque com atenção pode contar bem mais de mil árvores. Na verdade, de 2003 até hoje Hélio já plantou mais de 5 mil árvores. Mas é que a gente perde as contas ouvindo o canto dos pássaros…

O Tiquatira é o único espaço usado pelos moradores da região para se exercitar. A Penha possui cerca de 470 mil habitantes, abrangendo os distritos de Penha, Cangaíba, Vila Matilde e Artur Alvim. Com o plantio das árvores, o barulho do tráfego de veículos intenso ao longo das avenidas tem ficado cada vez mais distante.

Todo mês Hélio enfia as mãos nos próprios bolsos e saca de R$ 500 a R$ 800,00 para plantio e manutenção das árvores. Mas ele não encara isso como gasto: “Isso é o mínimo que eu acho que posso fazer. Pra deixar alguma coisa melhor. Se tivessem feito alguma coisa eu estaria com um mundo melhor hoje. Imagine isso tudo arborizado. Às vezes fecho os olhos e fotografo já como vai ficar isso daqui a uns anos”

Hélio é gerente comercial de uma grande empresa de produtos alimentícios orgânicos. De segunda a sexta, trabalha como qualquer um de nós. Sábados, domingos e feriados são reservados ao plantio na Penha. Morador da região há 48 anos, vindo da cidade de Promissão, interior de São Paulo, é reconhecido por todos quando anda pelas ruas do entorno do Parque. Aquele micro-universo dentro de uma megalópole de 11 milhões de habitantes parece mesmo uma cidade do interior. Hélio trouxe Promissão com ele. Não somos nós que habitamos as cidades afinal, e sim as cidades que habitam a gente…

Hélio tem três filhos. Um deles está fazendo MBA em Gestão Ambiental na Alemanha, depois de ter feito Engenharia Química na USP e Gestão Ambiental na Fundação Getúlio Vargas. Antes, esse mesmo filho ajudava Hélio no plantio. Hoje ele conta com dois colaboradores do bairro para exercitar o dedo verde aos finais de semana.

 

As espécies escolhidas para plantio são quase todas nativas de São Paulo (cerca de 90%): “Essas árvores existiam aqui há 100, 200 anos, temos que aproveitar o banco genético [do solo] porque assim elas se adaptam bem”. Hélio carrega uma lista com os viveiros do estado de São Paulo, onde costuma comprar as mudas. Também visita viveiros e procura espécies para plantio em outros estados. Como a chamada bolão-de-ouro, que ele trouxe de Curitiba e plantou no Tiquatira. De cada doze árvores, uma é frutífera “para atrair pássaros”, justifica.

O Tiquatira é uma área pública municipal. Hélio dá uma ‘mãozinha’ para a Prefeitura. Ele planta as árvores e dá manutenção. Além disso, de três em três meses Hélio usa calcário para corrigir o PH do solo. Ele se lembra que há alguns anos, quando caminhava no Tiquatira, a faixa extensa que acompanha o curso do rio era árida, sem verde nem sombra, barulhenta por causa do trânsito intenso das avenidas. Hoje o barulho já se perde em meio aos passarinhos e algumas copas de árvores.

Hélio monta o plano de manejo e o projeto executivo do Parque em sua cabeça e já vislumbra como estará diferente o cenário daqui a alguns anos: uma alameda sombreada por árvores, com bancos a cada cinco metros, para os idosos caminharem; um bosque de vegetação fechada bem ao centro, ao longo do curso d’água; grandes árvores seguindo as avenidas, isolando quase que completamente o barulho dos automóveis.

O Tiquatira é o primeiro parque linear de São Paulo. Esse tipo de parque está previsto no Plano Diretor Estratégico da cidade e é uma das alternativas à canalização dos cursos d’água e à impermeabilização das várzeas dos rios. Com a instalação de equipamentos de lazer nas margens dos cursos d’água evita-se a construção de habitações irregulares e ampliam-se as ofertas de lazer da população.

 

Piscinão Rincão

Nunca tinha entrado num Piscinão. Aqui em São Paulo existem 15: nove na zona leste, três na zona norte, dois na zona sul e um na região central. Estratégia nonsense inventada para represar o excesso de água em época de chuva, minimizando (?) enchentes. Normalmente é um espaço árido, que requer manutenção constante e torna-se um depósito de sujeira em épocas secas.

O Piscinão Rincão, na Penha, possui uma área de 70 mil m² e uma capacidade para 304.300 m³ de água. Com passo apressado, percorro sua parte superior em 5 a 7 minutos. É lá, de onde se tem a visão daquele grande domo ao contrário, que Hélio tem plantado árvores para criar um espaço sombreado para os moradores do local fazerem sua caminhada diária. Olhando o declive é fácil ver os sinais da passagem dele por ali. No Rincão, duas mil árvores já foram plantadas, de 140 espécies.

“Todos os piscinões estão abandonados. Este aqui eu estou cuidando. A Prefeitura me dá terra boa. A terra aqui é muito ruim, era um aterro. Tenho que escolher espécies que se adaptem bem a esse tipo de solo.” Hélio começou o plantio no Piscinão Rincão há cerca de dois anos.

Percorrendo a ‘pista’ utilizada pela população local para se exercitar, ouço cantos variados de pássaros. A intenção de Hélio é criar uma espécie de corredor para os pássaros entre o Tiquatira e o Rincão. Parece que a idéia já está funcionando.

A primeira árvore plantada por Hélio no Tiquatira, em 2003, foi uma calabura, que ele diz ser conhecida como viagra da natureza por atrair muitos pássaros e propiciar o acasalamento. Por seu rápido crescimento e intensidade de frutificação, a calabura é recomendada como espécie de enriquecimento de fauna. É originária das Antilhas e tem frutos muito apreciados pelos passados. Segundo dados do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF), cada fruto da calabura pode conter, em média, 4.450 sementes. Hélio diz que a espécie atrai cerca de 52 espécies de pássaros.

No dia em que o neto João Pedro nasceu, Hélio plantou 50 árvores no Tiquatira. “São pra ele. O João Pedro um dia vai falar pro filho dele: seu bisavô plantou isso aqui. E provavelmente meu bisneto vai falar pro filho dele a mesma coisa. Talvez isso estimule, talvez algum deles resolva seguir com esse trabalho.”

O plano inicial era plantar 5 mil árvores até 2007. Esse número já foi ultrapassado. A meta de Hélio agora é plantar 15 mil mudas até 2014. Algumas árvores plantadas são alvo de depredação constante. Ele diz que as pessoas usam para fazer fogueira à noite. Mas nem por isso desanima: “pra cada uma [que destruírem], planto dez. E de dez em dez já são mais de cinco mil.” Hélio tem tudo anotado – o número de mudas e as espécies plantadas em cada final de semana e a localização.

“Não tô cobrando nada, é de graça. As melhores coisas da vida são de graça,” sorri enquanto volta a identificar as espécies: angico, calabura, jambolão, cipreste, cedro, jurubeba, ingá, mulungu, paineira, jatobá, eritrina…

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4 pensamentos sobre “Hélio já plantou mais de cinco mil árvores e está arborizando um piscinão…

  1. Apenas para atualizar: Conversei com o Hélio recentemente e fiquei muito feliz pela notícia de que o projeto continua, agora com mais intensidade ou seja:
    Os números de arvores da espécie da Mata Atlântica já somam 8.495 arvores( até o dia 02/11/08) de um projeto de 15.000 arvores a serem plantadas até o ano de 2014.

    Ele já fala em 20.000 arvores e pelo jeito vai conseguir.

    Parabéns Hélio, nossos filhos e netos agradecem, o planeta sorri e os pássaros cantam mais felizes.

  2. Fiquei muito feliz e admirado ao ver esse trabalho que está sendo feito. Gostaria de saber como posso contribuir.

  3. Realmente, quando o dia está bem ensolarado, avistamos varias especies de aves, uma mais linda que a outra, o local está ficando com um visual bem diferente, graças a esse senhor, que faz a diferença, se cada um de nós, que fazemos caminhada, no piscinão rincão, plantasse uma, apenas uma arvores, já ajudaria e muito, “fiz a minha colabração”, mas nem todo mundo pensa assim, há pessoas que acabem levando mudas ou até derrubando algumas arvores, porém existe pessoas que também cuida para que isso não aconteça, e graças a elas, que diminuiu bastante a destruição, de algumas arvores, dá pra imaginar, quando estivermos na primavera, será possivel ver outras especies de passaros, que maravilha.
    Apesar do impacto ambiental que sofreu o local, existe os pontos positivos e negativos como por ex:
    o cheiro desagradavel, a remoção do lodo, para a parte mais alta, sendo carregado material particulado contaminado para dentro de nossas casas, devido ao vento, aumento de insetos, principalmente o mosquito da dengue…
    Porém tem seu positivo arborização, diminuição de ruidos de carros, migração de especies de aves, local para exercícios.

    Obrigada senhor Helio e colaboradores, por fazer a diferença.

    Alquiria Nunes
    Gestora Ambiental.

  4. Bom dia Sr. Helio,

    adorei a sua história, nosso planeta precisaria de muitas pessoas como o Senhor, eu adoro plantas/árvores, temos uma pequena chácara no interior de Mato Grosso, na região do Araguaia, e tem um pouco de tudo plantado, nossa maior alegria é ver pela noitinha um bando de pássaros passarem a noite numa parte de mata nativa que deixamos na propriedade e de manha cedo é aquela barulheira, isso é ótimo, sem falar nas árovres frutiferas…que eles são os donos, é maravilhoso.
    Nós estamos procurando, já a muito tempo, sementes de calabura, para plantarmos na beira dos açudes, para servirem de alimento para os peixes e tambem para os pássaros, será que o Senhor, poderia nos informar onde conseguimos essa planta? ou se o Senhor tem algumas sementes para arrumar para nós.
    Fico aguardando a sua resposta
    Grande abraço.
    Julia
    PS. se alguém ler e tiver dessas sementes, tambem pode entrar em contato.

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